No agitado universo dos games, poucos lançamentos de 2025 geraram tanta expectativa e controvérsia quanto Assassin’s Creed Shadows. A mais recente adição à consagrada franquia da Ubisoft finalmente chegou às prateleiras, mas seu caminho até os consoles e PCs dos jogadores foi marcado por uma série de decisões questionáveis e ajustes de última hora que revelam muito sobre os bastidores tumultuados da gigante francesa dos games.
O Patch Silencioso e a Questão Cultural
A Ubisoft, em uma manobra discreta que não passou despercebida pelos olhos atentos da comunidade gamer, implementou um patch de lançamento para Assassin’s Creed Shadows que eliminou especificamente a possibilidade dos jogadores destruírem ou danificarem elementos sagrados dentro dos santuários japoneses. Esta modificação surgiu como resposta direta à crescente onda de críticas vindas não apenas de autoridades japonesas, mas também de jogadores preocupados com a representação cultural no game.
O que chama atenção é que a desenvolvedora optou por não destacar esta significativa mudança em suas notas oficiais de atualização, limitando-se a um breve reconhecimento quase imperceptível. A alteração modifica fundamentalmente as interações dos personagens com os ambientes sagrados, tornando objetos culturalmente importantes como mesas cerimoniais, prateleiras de oferendas e altares completamente indestrutíveis durante a gameplay.
“A representação respeitosa de locais sagrados não deveria ser uma reflexão tardia no desenvolvimento de um jogo, mas parte integral do processo criativo desde o início”, comentou Akira Tanaka, especialista em cultura japonesa e consultor da indústria de games, em entrevista ao portal Japan Gaming Today.
Vozes Influentes e Repercussão Internacional
A controvérsia ganhou proporções internacionais quando o proeminente político japonês Hiroyuki Kada manifestou publicamente sua indignação ao ver imagens promocionais do jogo que mostravam jogadores destruindo interiores de santuários seculares. O que poderia ter sido apenas mais uma crítica pontual transformou-se em crise diplomática quando o próprio primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, entrou no debate.
Em pronunciamento que viralizou nas redes sociais, Ishiba classificou a destruição virtual de santuários como uma “ofensa à própria nação japonesa” e enfatizou a importância fundamental de respeitar patrimônios culturais e religiosos, mesmo em ambientes digitais de entretenimento. “Nossos santuários não são apenas construções, são repositórios de nossa identidade nacional e espiritual”, declarou Ishiba em coletiva de imprensa no início de março.
A controvérsia atravessou fronteiras e ganhou ainda mais visibilidade quando o bilionário Elon Musk, conhecido por suas intervenções em debates polêmicos nas redes sociais, compartilhou sua opinião para seus mais de 200 milhões de seguidores. “Interessante como algumas empresas ainda não aprenderam que respeito cultural não é opcional em 2025”, escreveu Musk, em publicação que acumulou mais de 1,7 milhão de interações.
Um Histórico de Tropeços Culturais

O episódio dos santuários não representa um caso isolado, mas sim o capítulo mais recente em uma preocupante série de desastres de relações públicas que têm cercado Assassin’s Creed Shadows desde seu anúncio inicial. A Ubisoft tem enfrentado críticas consistentes por sua abordagem à cultura japonesa do período feudal, cenário escolhido para esta edição da franquia.
Fãs e historiadores apontaram inconsistências históricas graves em artes conceituais divulgadas durante o desenvolvimento. A infame estátua de colecionador, que teve que ser completamente redesenhada após acusações de perpetuar estereótipos ofensivos, custou à empresa não apenas recursos financeiros, mas um inestimável capital de confiança junto à comunidade.
Kazuo Hirai, historiador especializado no período Edo e consultor ocasional da indústria de entretenimento, não poupa palavras ao analisar o caso: “O problema não é apenas a falta de precisão histórica, algo que poderia ser perdoado em um produto de entretenimento. O verdadeiro problema é a aparente falta de interesse genuíno em compreender a profundidade cultural japonesa antes de transformá-la em cenário para um jogo.”
O Futuro da Franquia e Lições Aprendidas
Enquanto jogadores ao redor do mundo começam a explorar o Japão feudal recriado em Assassin’s Creed Shadows, a Ubisoft encontra-se em um momento crucial para o futuro da franquia. A empresa agora enfrenta o desafio de recuperar-se não apenas destes tropeços recentes, mas de reconstruir sua reputação como desenvolvedora capaz de representar diversas culturas com o respeito e a nuance necessários.
“O caso Shadows deveria servir como estudo de caso para toda a indústria”, opina Mariana Silveira, antropóloga e consultora de diversidade cultural para mídia e entretenimento. “Estamos em 2025, e o público não aceita mais representações superficiais ou desrespeitosas de culturas. As empresas precisam investir em pesquisa e consultoria cultural séria desde as fases iniciais do desenvolvimento.”
Fontes próximas à Ubisoft, que preferiram não se identificar, indicam que a empresa já iniciou uma revisão completa de seus processos de desenvolvimento para futuros títulos com cenários culturalmente sensíveis, incluindo a contratação de mais consultores especializados e a implementação de protocolos de verificação cultural mais rigorosos.
Enquanto isso, a comunidade gamer aguarda ansiosamente para ver se as mudanças implementadas serão suficientes para salvar a experiência do jogo e se a Ubisoft conseguirá transformar esta crise em uma oportunidade de crescimento e aprendizado. Afinal, como bem resumiu o veterano designer de jogos Hideo Kojima em recente entrevista: “Os melhores jogos não são apenas aqueles que nos proporcionam entretenimento, mas os que nos fazem crescer como pessoas e entender melhor o mundo ao nosso redor.”